Tango do Covil
   
 
   
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ATENÇÃO, AMIGOS! O ENDEREÇO DESTE BLOG MUDOU. AGORA ESTOU NO WORDPRESS.

O NOVO ENDEREÇO É:  http://coviltango.wordpress.com/

ABRAÇOS!

 

 



Escrito por Coiote às 23h12
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Flávio José...saudade de um bom forrozeiro

Durante os quase quatro anos de Nordeste - entre Aracaju e Maceió - fui surrado diariamente pelas bandas de forró locais, em geral ignoradas da Bahia pra baixo. E não sem razão. Na maioria, são ruins, letras idiotas, rimas estapafúrdias, zero em qualidade musical e, quase sem exceção, apelam para o sexo de forma grosseira. No entanto, são idolatradas pelo público, que dança e se diverte ao som desses grupos até o dia clarear. Gosto de um forró, mas como o de Gonzagão. Malicioso, sim, mas admirável pelas letras que produziu, devotadas àquela parte do Brasil solenemente ignorada pelas suas elites e pelas elites do Sul e Sudeste durante séculos sem fim. Lá, no entanto, pude conhecer (pelas ondas do rádio) a música de um pernambucano, Flávio José, que me encantou logo de cara. Uma canção, em especial, marcou minha passagem por aquelas bandas: Tareco e Mariola. O nome se refere a guloseimas populares nordestinas. A letra, contudo, vai fundo, cantando a obra do artesão Mestre Osvaldo, retratando a cultura de quem se criou no sertão esquecido, ferido pelo sol causticante, entre calangos, cabras, palmas e pulsações de amor nos braços de uma morena rendeira. Aqui está a canção:

http://www.youtube.com/watch?v=OJL9OaAyrEg



Escrito por Coiote às 23h16
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Reflexões paternas

Mostre-me o caminho. Poupe-me, contudo,  do que mais souber sobre a trilha indicada. Prescindo de que me fale sobre os obstáculos, os perigos reais, os riscos iminentes, as dificuldades que me aguardam. Assim, tendo de enfrentar o desconhecido, levo a vantagem de aprender a caminhar pelas próprias pernas, guiar-me pela intuição, exercitar a visão, a audição, os reflexos.
Acompanhe-me à distância, se possível. Faça figa, imagine meu sucesso. Não se preocupe em determinar como se avalia isso, se pelos tropeços ou conquistas fáceis. Aja como o pai que ama profundamente a cria e que, no entanto, não hesita em permitir ao filho o direito de embrenhar-se nas paixões, duvidar, temer, crer, ousar... ou desistir.  Seja protetor, mas não proprietário. Entenda que não lhe resta outro papel a desempenhar. E acostume-se a ver felicidade nesta liberação incondicional da vida que a ti coube engendrar.
Ensine o que lhe for dado a ensinar. E disso, faça uma militância diária. Mas, não queira ver um espelho, a própria imagem. As diferenças são as nossas chaves, a identidade pessoal. É determinante que as carreguemos conosco. Nos reencontros, saberemos perceber quantas delas compartilhamos e quais nos colocam em ângulos opostos, mas nunca excludentes.



Escrito por Coiote às 12h00
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Da roça pra Santos

Bar Beduíno, praia do Gonzaga, três da tarde, 1969. Reuníamos os trocados em seis adolescentes para tomar um refrigerante depois de passar quase a manhã toda e o início da tarde assando na areia. O grupelho tinha Sônia, Fernando, Zé Antônio, meus primos queridos. E mais a Benê, prima deles, que vinha de Jundiaí nas férias e se juntava a nós. A bebida era limitada, dois copos do tipo americano para cada um. E nada além. Goles administrados com paciência para nos reter ali por pelo menos uma hora.
Íamos e voltávamos a pé. Longos oito ou nove quarteirões (seriam mais?) de jornada. E. religiosamente, todos os dias. Bastava que fizesse sol, mas até um tempinho nublado não nos dissuadia daquela rotina deliciosa. Laços sólidos de amizade se formando, incentivando confidências, aceitação, revelando personalidades e mostrando um jeito descomplicado de amar que se adequava a todas elas.
Recém-vindo, poucos meses antes, de uma fazenda no Norte do Paraná, era o próprio bicho do mato. Não me esforçava para pronunciar o “tu”, tão comum entre os santistas e sentia o sotaque roceiro vivo, retumbante como nunca nas palavras pronunciadas. Eles riam, mas não havia qualquer preconceito naquilo e eu sabia perfeitamente disso. Não me envergonhava, portanto, pois até sentia que aquela diferença me era favorável na relação com todos eles.
Minhas histórias retratavam pastos, bois, porcos alimentados com abóboras de quinze, vinte quilos. Falavam também dos pés de abacate, de jambo, das jabuticabeiras e mangueiras carregadas onde eu subia com um rádio GE, à pilha, de longo alcance e saboreava as frutas ao som de sucessos do Ed Carlos, Jerry Adriani, Elvis e Beatles. Eles, meus primos, em retribuição, me apresentavam a cidade, a vida urbana. A beleza dos dentes brancos, bem escovados. Os bondes e trolebus, a missa dominical dos jovens na Basílica do Embaré em que, muito mais que os sermões, eram as guitarras já razoavelmente desobedientes que nos atraiam.
Na escola, o “Ateneu Santista”, a duas quadras do estádio da Vila Belmiro, matriculado no segundo ano do então Ginásio Comercial (equivalente, hoje, à sétima série do Fundamental, mas com viés em contabilidade), ali sim sobreveio a mais dura prova daquela necessária ambientação ao mundo fora do lombo de um cavalo e longe do som inebriante das corredeiras do Rio Tibagi, nas imediações de Sertanópolis.
Poucos mais de 30 dias de aulas e a primeira prova de inglês, língua que eu praticamente desconhecia naquela época. Um redondo zero, anunciou o professor enquanto me entrega a folha com aquele círculo vermelho que parecia refletir o fogo do inferno. Mantive a linha tanto o quanto pude, e quase não pude. Rosto ruborizado, fervendo, febre de 40 graus cozinhando até a alma. E abstrai daquele golpe com imagens dos pés no chão, do Iran e Ivan, dois amigos da fazenda nadando nas lagoas onde fervilhavam cardumes de carás e lambaris.
A caminho de casa, depois daquela nota que causou dor de uma chicotada com vara de Santa Bárbara, o compenetrado Altamir, rosto deformado pelas espinhas, colega de classe, balbuciou uma frase quando já tínhamos percorrido uns 150 metros desde o portão da escola.
- Olha, eu estudo com aquele pessoal deste o primeiro ano e você acabou de chegar aqui...
- Sei...
- E o que quero te dizer é que tu ta sendo o primeiro cara com quem eu converso um pouco mais nesse tempo todo.
- Sei...
Senti o tom de consolo, de solidariedade. Fiquei sem saber o que responder. Mais duas quadras e nos separamos com um tchau, cada um tomando o rumo de sua casa.
Bati a porta atrás de mim. Engoli uma caneca de leite, masquei um naco de pão seco. Liguei a tevê, uma Telefunkem 23 polegadas, a primeira da família. Só então, enrolado num cobertor, no sofá da sala, me dei conta do que dissera Altamir minutos antes.  Na tela, um seriado de terror, episódio da série “Suspense”, acho, com histórias do Hitchcock. Na cabeça, a fala do colega de escola carteiro e rosto dele feito queijo, tomado por pequenas crateras e sulcos de acne. O tempo é o senhor de tudo, pensei. Um zero na prova, 10 na vida. Um novo e primeiro amigo não aparentado em Santos. No mês seguinte, sem surpresas para o professor, um nordestino porreta, baixinho e empertigado, sempre de terno cinza, a segunda prova. E, agora, um 10. Que me suprimiu o ar do peito, freou o coração por alguns instantes.
“Eu já esperava essa virada”, disse o teacher, com um sorriso significativo. Olhei pra fileira lateral, lá no fundo, e encontrei os olhos do Altamir. Ele sorriu e puxou as palmas, seguido pelos outros colegas. Enterrei-me na carteira escolar, sentindo sob as meias os pés ainda cascudos da terra vermelha da Fazenda Bom Pastor, a saudade da quiabada, da salada de maxixe com serralha, da mistura de farinha de milho com café fraco, bem doce, devorada às colheradas dentro de uma caneca feita com meia lata de óleo de soja, do surubim no anzol de galho.
 O Bar do Beduíno, no final de semana seguinte, recebia, enfim, um garoto ainda muito tímido e inseguro, que corava até para colocar uma sunga vermelha, larga, comprada na feira livre. Era, contudo, um outro e novo menino. Quase completamente santista. E integralmente normal. 


Escrito por Coiote às 21h59
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O que a morte, enfim, nos retira?

Do que mais me ressinto, é da falta do abraço. Daquele aperto carinhoso, doce. No mais, as lembranças sobrevivem em cada recôndito de gaveta, nas caixas de medicamentos que ainda ficaram para trás, no última lata de sustagem...ainda pela metade. Quase dois meses de ausência da matéria e, no entanto, a presença espiritual parece reforçar-se a cada dia. É este, então, o bálsamo que a perda irreparável nos lega? Alguns recorreriam ao mais fácil e o chamariam saudade. Mas, me parece leviano, insensato apropriar-se de palavras para retratar sentimentos tão fortes que travam o coração quando uma parte de nosso mundo se afasta assim, irremediavelmente. Tenho observado de perto esta dor, procurado extrair algum sentido de tudo isso. A vida esvai, contudo, e dispensa compreensão ou revolta. Não me impede, porém, de borrifar o suave perfume de pitanga com que a presenteei, há um ano, se tanto, na fronha de meu travesseiro. Dá um certo conforto fechar os olhos com aquele aroma delicado inundando a alma. Vejo-a nitidamente caminhando pelo corredor daqui de casa, aquecida dentro de uma roupão de banho rosa que de tão longo chega a roçar seus pés. Debilitada, ela sorri, a meiguice de sempre impressa na face pálida de quem já não evoca mais resistência e só deseja um longo repouso, o descanso merecido depois de 87 anos de jornada. Se me vê, neste istante, deve estar desolada, ponderando se poderia, afinal, permanecer conosco por mais algum tempo. Ou não. Estava, talvez, já enfadada da espera e do desespero que sondava em nossos olhos marejados por recusarem a despedida iminente. Nem tento mais perscrutar o que se escondeu da minha percepção naqueles dias finais. Vi o que bastou, o que pude suportar. Nunca, antes, havia  desabado tanto em lágrimas. O adeus derruba, desarma, nos deixa absolutamente inoperantes, impotentes e, sobretudo, vulneráveis. A morte nos retira o chão, é verdade. Nos leva o corpo. Mas é incapaz de sepultar aromas, a sensação de proximidade com quem partiu. Retira o tato, a visão, fragmenta possivelmente outros de nossos sentidos, mas é de todo incapaz de nos surrupiar a capacidade de reter imagens e ressuscitar amores bem vividos. Um grande beijo, mãe.   

Escrito por Coiote às 01h28
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Ecos distantes...

Aos oito anos, a casa de número 809, da Rua 10, em Rio Claro, abrigou-me e à minha família: pai, mãe e três irmãos mais velhos. Quanto às finanças, aqueles dois anos foram de muitas carências. Mas, criança não percebe isso. Uma galinha, que a “Mama” criava no fundo do quintal, fornecia a energia que eu precisava. Punha um ovo, quase todo dia e este era transformado numa gemada quentinha, que eu tomava no meio da tarde.
Já existia merenda escolar, e da boa. Isto permitia que o estômago alternasse pão doce com mortadela, sagu de uva, canjica e mingau de chocolate durante toda a semana. Às vezes, uma amiga da família me dava uns trocados e eu só tinha de atravessar a rua para comprar paçoquinha na Padaria Aliança. Dona Júlia e seu Ariovaldo (seria este o nome dele?) eram corteses, carinhosos comigo. Conduziam-me, frequentemente, à cozinha e serviam um café delicioso, inclusive com chucrute caseiro, que logo aprendi a gostar.
O filho único do casal, Ângelo, apelidei de “Beteto”, meu companheiro inseparável. Dois anos e pouco mais novo que eu, como se fosse um irmãozinho caçula.
Eu gostava de imitá-lo, na voz, principalmente. Minha mãe, às voltas com o tanque cheio de roupas, “caía”, invariavelmente naqueles trotes infantis que eu aplicava à perfeição. Ela ouvia aquele suposto diálogo, em que eu aborrecia Bebeto, e me repreendia irritada, enquanto torcia as peças de roupa. Eu levava a brincadeira até o limite da minha segurança. Quando sentia que poderia levar umas palmadas na bunda (e ela não hesitava em aplicar tais corretivos), evaporava em direção à rua.  Na verdade, eu nunca me indispunha com Beteto, aquele amigo indispensável com quem eu dividia quase que a totalidade dos meus dias.
Pela manhã, eu costumava acompanha-lo até a casa de sua avó, uma quadra abaixo de onde morávamos. Ele tomava a segunda rodada do lanche matinal nos braços da nona, uma senhora forte, viçosa, de cabelos grisalhos e fisionomia austera. Beteto a chamava do portão. Em segundos, ela surgia caminhando lentamente por um corredor lateral da casa. O ritual jamais se alterava. Ela abria o portão, beijava o neto, afagava-lhe os cabelos, acariciava-lhe o rosto e me lançava um olhar de soslaio, indiferente. O portão se fechava. Avó e neto entravam na casa. Eu, do lado de fora, sentava no chão e ajeitava as costas na almofada desconfortável do muro.
Havia, contudo, um mistério que eu ainda demoraria anos pra decifrar. Beteto despedia-se da avó, quinze minutos depois, lambendo os beiços. “Tomei Ovomaltine”, contava-me, enquanto passava a mão no canto da boca para retirar um rastro de tom achocolatado.  Eu nunca ouvira falar daquilo. Então, minha imaginação voava sem rumo, para todos os lados, fantasiando o que poderia ser aquela gostosura. A pressa de sair dali, de brincar, de aproveitar sem perda cada minuto, cuidava de afastar rapidamente aquelas imagens e devaneios. Além disso, eu já estava resignado com aquela sina. Nunca haveria um convite para entrar naquela casa que eu só conhecia do muro pra fora. E provar do tal “ovomaltine”, então, não estava, decididamente, previsto naquela fase da minha vida.  A companhia de Bebeto, no entanto, zerava as poucas inquietações que eu tinha.
Dali, da casa da avó, retomávamos o caminho de volta e nos reuníamos a mais dois amiguinhos: Bete e um outro garotinho que me escapa o nome agora.  O dia era curto pra tanta peraltice e idéias de sobre o que fazer com o tempo. A alegria cabia, sim, na extensão de uma quadra. Éramos muito, mas muito felizes mesmos, como eram, também, as outras crianças que conhecíamos da rua.
Eu gostava de enroscar as pernas e soltar o corpo num galho alto de uma pitangueira que tínhamos no quintal de casa. Tinha uma paixão sem freios por circo. Sonhava com um trapézio, testava o equilíbrio sobre vigas estreitas de madeira e tinha uma obsessão pelas formigas, que observava durante horas seguidas, quase sempre distribuindo pernas de baratas mortas àquelas operárias diminutas só para vê-las, durante muito tempo, dedicadas à tarefa de levar aquelas guloseimas para dentro dos formigueiros.
Já conhecia a fábula da formiga e da cigarra contida num livro de folhas grandes, generosamente ilustradas, que eu guardava como um pequeno tesouro. Beteto, creio, teve várias oportunidades de folhear aquela obra que me era tão cara, especial. Mas, até onde recordo, se mantinha à boa distância da minha curiosidade ilimitada pela sociedade das formigas, que eram reproduzidas nos meus cadernos escolares, no risco do giz, nos desenhos feitos no chão, com lascas de tijolo, telha e pequenas pedras. Eu as projetava nos desenhos sempre desempenhando tarefas humanas. É certo que sempre quis vê-las bem mais próximas e grandalhonas diante de meus olhos. Meu pai, porém, tratava de não incendiar meus desejos com coisas e objetos que não pretendia ou, simplesmente, não teria como comprar. A palavra lupa, portanto, esteve ausente do meu vocabulário naqueles anos antigos.
Acredito firmemente que ter o Beteto por perto também compensava a falta de uma lupa, da mesma forma que sua presença contínua em minha vida também conseguia me abstrair do gosto do Ovomaltine. Amigos podem tudo isso. Tenho certeza do que digo. E podem mais: arrastar essas lembranças vida afora. Nítidas como se tivessem sido captadas na noite anterior, no minuto que antecedeu esta frase...
Quase meio século depois, agora morando novamente em Rio Claro, passei pela Rua 10, ontem. A velha padaria continuava lá, mas reformada, com nome sofisticado. A casa em que morei, no número 809, foi pouco desfigurada desde então. Só a fachada mudou, mas levemente.
Permaneci ali parado, olhos encharcados, absorvendo e esquadrinhando comovido aqueles poucos metros quadrados de rua, muros, telhados e calçadas que docemente emolduraram parte de minha vida. Hesitei, refleti um pouco, tomei coragem e entrei na padaria. Mesmo depois de tantos anos, precisei de apenas frações de segundos para ver que aquele senhor de meia idade, grisalho e solene, no caixa, não era o Beteto. Mas ele, felizmente, tinha numa velha agenda o telefone do último dono, Ângelo, o Beteto. E me cedeu.
Precisei de uma noite e um meio dia, contados a partir de ontem, às 9h30, quando tive acesso à localização do meu amigo de infância, para decidir sobre a conveniência de fazer ou não contato com o passado. Curiosamente (?), pouco depois de obter o telefone, recebi um telefonema de meu irmão informando a morte de um primo, ocorrida quase naquela mesma hora. Na madrugada, durante o velório e hoje, quando do sepultamento, Beteto não me saía dos pensamentos.
A vida não perdoa, tem suas regras, faz seus limites e não nos permite nenhuma participação em suas tomadas de decisões. Cabe, então, aproveitar seus cochilos e não descartar as chances de retomar, rever, abraçar e beijar enquanto o coração bate e a alma palpita. Liguei pro Beteto há duas horas. Encontrei-o. Falei com ele. Foi receptivo, gentil. Marcamos um café, uma cachaça, sei lá o que. A data ainda não foi definida, mas pouco importa agora. Capturei o passado, algumas páginas dele. Só o estar vivo nos permite isso.  Ah, só vim experimentar Ovomaltine aos 16 anos. Ao provar, precisei admitir que minha fantasia sobre aquele produto fora bem mais saborosa. Sobre essas impressões, uma verdade: nem tudo aquilo que seduz, dá no couro.



Escrito por Coiote às 00h58
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Levantando acampamento...

Janeiro, primeiro dia de 2008. Não sei o que muda, que diferença faz. Cacos de vidro pelas ruas, lixo. Porres, beijos, abraços, fodas. No limits. Alegria com hora marcada. Triste isso. Há muitos anos decidi que janeiro é um bom período para voar, trocar de ninho, mudar de poleiro. Dedo indicador no ar pra ver de onde vem o vento. Um pouco de receio nestas horas faz bem. Ajuda a não se precipitar, trocar os pés pelas mãos. Excesso de segurança retira muito do prazer de arriscar a encarar um novo porto, outro atracadouro para a vida que carregamos na mochila. De resto, legislo em causa própria porque nunca fui muito seguro do que desejava. Felizmente. Em geral, optei por pagar pra ver. Parece inconsequência, mas creio que é só mais uma estratégia, um jeito como qualquer outro de lidar com a existência. Gosto de uma certa imprecisão em tudo que faço ou tento planejar. Dá uma dimensão mais humana ao que se faz. Permite alterar roteiros, desconfiar das fórmulas prontas. Bem, o fato é que este janeiro também promete. Quase que uma volta às origens, mas honestamente não sei se tanto assim. Retornar à cidade em que nasci não tem este significado. Sou outro, muito diferente do menino que zarpou de lá aos sete anos. Provavelmente não melhor do que aquele garoto, mas certamente muito menos feliz. Mesmo assim, é um retorno necessário, indipensável neste instante da vida. Depois, não sei. Adaptação nunca foi problema; tiro de letra isso. A vida segue, como eu. Mudanças são sempre revigorantes. Vamos a elas, então.  

Escrito por Coiote às 00h33
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Recado

Depois de meses, postei algo. Quero ver se embalo e me animo a atualizar com mais frequência. Obrigado por baixar neste terreiro.

Escrito por Coiote às 22h27
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Noções (vagas) de matemática

Creio, logo, insisto. A vida é matemática quase todo o tempo. A parte dela que me aborrece, profundamente, é o cálculo de como sobreviver ao longo de cada novo mês. Já disse, há 30 anos, que o combustível da vida é o dinheiro. O resto é balela. E meu pai não me deixou legado sobre como rechear o bolso. Ele tinha outras preocupações. E o que pude reter dele na curta convivência, até sua partida, aos 54 anos, não foi suficiente para descobrir quais eram seus dilemas, em que, verdadeiramente, ele acreditava. Essa minha distração involuntária (afinal, como poderia saber que Osvaldo partiria tão cedo?) me custa caro até hoje e vai me levar ao crematório da Vila Alpina, em São Paulo, sem resposta. Tudo bem. Morrer também é matemático.  Um dia, voltamos ao zero. 
Percebo, porém, que a incapacidade de querer dinheiro está na mesma proporção que o desinteresse em lavar a égua. Ou seja, desinteresse em fazer fortuna ou alguma coisa bem similar a isso. Nunca, mesmo assim, me passou pela cabeça que eu fossse um derrotado. Entre os meus talentos, se os tenho, simplesmente não lapidei este, de desejar nadar em grana. Ficou mesmo na pedra bruta, no máximo, na pedra lascada. E agora é tarde. Não pela idade, que ainda me permite algum gás extra. Mas, e só por isso, porque essas teorias do se dar bem financeiramente foram abandonadas pelo caminho.
Quando garoto, eu imaginava que ser feliz era ter os pés descalços, observar formigueiros no quintal de casa e ouvir a voz do meu amigo “Beteto” (o segundo “e” é aberto), no portão, chamando para brincar. A imagem de um banquete limitava-se à macarronada, com molho de sardinha, que eu devorava, às vezes, aos domingos. Meu mundo não tinha tecnologia, pelo menos não que ficasse tão evidente.  Meus pais também sabiam nada de inovação. Serviam-me os mesmos carinhos, sempre, como se a me dizer que aqueles eram os mais autênticos valores que poderiam compartilhar comigo.
Não soube e nem sei acumular, esta é a verdade. Substituí, sem culpas, as notas e moedas por amigos. Deixei-os por aí, em várias cidades, estados.  Mas, não os perdi de vista, sequer aqueles com os quais converso, antes de dormir, na penumbra do quarto, num quase monólogo em que a conexão possível é a saudade.  Outros amigos vieram. Não em grande número, porque sou péssimo em contas e, até por essa razão, não saberia administrar tantas relações sem errar algum cálculo básico, elementar.
Pensei nisso há poucas horas, quando atravessava a cidade, sob a garoa fina, com o pé leve no acelerador do Fusca. Bares cheios, gente bonita, comilanças. E eu só compenetrado em rever “Querelle”, do Fassbinder, que encontrei ontem numa locadora. Uma história sem qualquer glamour, baseada na obra de Genet. Vivo, logo, insisto... 


Escrito por Coiote às 22h21
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Algo descompromissado sobre a morte

A morte de alguém que nos é proximo ou mesmo de alguém que sequer conhecemos, mas que é próximo de alguém com quem nos relacionamos, costuma me impor uma pausa dolorida na rotina. Passo dois, três dias um tanto fora do ar e isso não tem muito a ver com o grau de proximidade que eu tinha com o morto. Se é jovem, como já aconteceu várias vezes, isso me causa uma indignação enorme; se se trata de um idoso, fico me perguntando se o extinto viveu com a intensidade que queria, se partiu feliz, nem que seja parcialmente feliz...
Não resisto à tentação, se tenho de acompanhar o cortejo até o túmulo, de observar a fisionomia de cada um dos que seguem atrás da urna fúnebre. Tento imaginar o vínculo que poderia ter existido entre essas pessoas e o morto, o quanto de pesar carregam em seus passos lentos, respeitosos, silenciosos. A dor me comove, torna-se minha, compartilho dela até sem querer. E percebo que o que mais me impressiona e sugestiona é saber se alguns, ali, se dão conta de que também são finitos, que mais dias ou menos dias estarão eles próprios, lá, acomodados, inertes, dentro de um esquife, cheirando a flores murchas.
Quando a vida de alguém querido se esvai, fico mais pobre. E empobreço em igual medida mesmo se o morto é quase um completo desconhecido. A impressão que me toma é que o vínculo sempre existe, ainda que não tenhamos qualquer familiaridade com aquele que parte sem direto a retorno.O tempo dá jeito nessa saudade que, nas primeiras horas da perda, parece querer nos levar junto com o falecido. O que, em princípio, soa insuportável, medonho, mortal, aos poucos é absorvido porque a consciência do irrecuperável, do irreverspível, acaba predominando.
É a perda, no entanto, que mais nos aproxima da fé ou, paradoxalmente, da mais absoluta descrença. Confesso que sempre titubeio entre uma e outra e não me preocupo em resolver essa questão...

Escrito por Coiote às 21h47
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Lá e cá...

Janeiro já se foi. As águas de março, antecipadas, encharcaram os últimos dias deste mês que nunca esteve entre os meus favoritos. Sempre gostei mais dos meses de outono, quando o ano já segue mais seguro seu curso. Além disso, acho essa palavra, outono, de uma delicadeza invulgar. Tende a nos remeter a coisas boas, embora eu não saiba – nem me esforce... – para explicar isso.

Também gosto dos meses de inverno, que deslizam no calendário logo após o outono, prenunciando a primavera. São meses mais frios, que aproximam as pessoas. Era assim na casa de madeira, varanda enorme sustentada por coqueiros, na Fazenda Bom Pastor, às margens do Rio Tibagi, quando eu ensaiava as primeiras lições de sexo.

Do grande fogão de lenha, no cair da noite, vinha o cheiro inconfundível da “menestra”, como Da. Olga chamava aquele caldo grosso de arroz, feijão, batatas e misteriosos temperos.  Uma fatia robusta de pão de casa fazia daqueles jantares ceias inesquecíveis. Papai, invariavelmente, senta-se á mesa só depois de tragar uma modesta dose de “3 Fazendas”, sua cachaça favorita. A lamparina a querosene no centro da mesa, desprendendo aquela fumaça de cheiro forte, enegrecida. O belo rosto de minha mãe, de linhas expressivas, solenes, duras e, ao mesmo tempo, delicadas, emergia diferente a cada movimento da chama. A família conversava distraída, sem pressa. Cães e gatos ao redor da mesa. Pirilampos espiando nas janelas. Ao longe, o urutau, mugidos esparsos de bois sonolentos.

Evito o sentimento de saudade, que nada me trás de volta. Mas, recorro sempre a essas imagens que, lentamente, no ritmo da enxada, construíram minha própria silhueta, moldaram valores e impregnaram a alma duma poesia escrita com a simplicidade de casa rústica, fonte de água límpida e relincho de um alazão...

Aqueles invernos que cobriam o capim com uma camada fina de gelo eram os mesmos que me faziam atolar o corpo nos acolchoados quentes recheados de paina, afundar a cabeça no travesseiro de pena de ganso e estender o corpo no colchão de palha de milho. Um sono ecológico e nem nos dávamos conta disso!

Hoje, é a frieza da tela do meu pc que espelha a minha imagem. A fala é eletrônica, o carinho também. Não há tato, sequer flagrâncias. Só as estações permanecem e são quase irreconhecíveis. No entanto, ainda aprecio o outono, anseio a chegada do inverno. Ninguém captura os sonhos, nem a meteorologia os subordina...



Escrito por Coiote às 10h22
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O ano que chega...

 

As mãos que trabalham

serão as mesmas que afagam, curam e doam;

 

O coração, um aliado e cúmplice na difusão da generosidade;

 

Os olhos, faróis possantes que carregam as imagens para a consciência e dela requerem ações;

 

Os ouvidos, conchas atentas ao silêncio da brisa, ao arrebentar das ondas, aos anseios da humanidade;

 

O espírito, um sempre irrequieto guardião da justiça;

 

E, 2007, o exercício pleno da razão...

 

 

Forte abraço, grande beijo, o melhor Natal pra vocês!

 

 

Elvio

 

(Maringá – Dezembro – 2006)



Escrito por Coiote às 20h29
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Só frases, nenhum propósito...

Estou muito cansado de tudo o que se refere à vida. Só ainda não, de vivê-la...

Aproxima-te! Mas, não tão perto que me provoque enjôo, e, nem tão longe que eu não possa farejar o teu desejo.

O amor é um pretexto frágil de quem teme ficar só...

Sobre uma paixão que não resistiu ao dia claro: Por que fostes inventar de dizer que me amava...?

Sobre o destino: rezo para que sempre me traia a confiança, e, ainda mais, para que sempre me contradiga...



Escrito por Coiote às 00h09
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Viagens e bagagens...

Há meses não deixo minhas impressões neste blog. Quase o mesmo tanto de tempo em que vivo afastado de mim. Tenho justificativas, claro. Mas, nem divago sobre elas. Não valeria a pena. Fatalmente encontraria milhões de outras pessoas que também passam por essas fases nebulosas e que, corajosas, não sucumbem diante de imprevistos. Sabem que, como os dias, que se renovam a cada ciclo, também as inquietudes do tempo – e da alma – vão e voltam, mas nenhuma delas se faz perene.

Recomeços são difíceis porque embutem experiências acumuladas e estas, nem sempre, deveriam sustentar as nossas retomadas, os reinícios. Mas, se, no entanto, é impossível abandonar de todo a bagagem carregada, que, então, sejamos, pelo menos, mais seletivos no momento de fazer as malas e partir. Como se faz nos preparativos para um camping. Primeiro o necessário; depois, se ainda houver espaço, o que nos parecer precioso e até algo de supérfluo.

E partidas não implicam distâncias percorridas. Não, não é preciso caminhar para tomar distância do que nos aflige, desanima e cansa. Um simples chacoalhar dos sentimentos, por vezes suave, já basta para reacomodar as coisas, deportá-las rumo ao quarto de despejo.

Quando se faz muito aguda, nossa percepção do mundo e das pessoas que o habitam tende a aproximar-nos da dúvida, do ceticismo. E não há mal algum nisso! Como, afinal, atravessar um muro de arbustos cheios de espinhos e, do outro lado, sair ileso? As cicatrizes são vitais. Principalmente quando já não sangram e não doem. Nelas se revela nossa identidade. Contam como vivemos, do que nos isolamos, a quem e a que nos entregamos. Não são necessariamente físicas; há um  número maior delas tatuado atrás dos nossos próprios e dos olhos alheios...num compartimento de segurança máxima.

Afivelo as malas. Não para partir. E junto todas as cicatrizes, reviro esses arquivos de memórias. Um sorriso aqui, duas palavras quase inaudíveis ali e muitas entrelinhas colecionadas durante anos. Um baú de prazeres, de pequenas tragédias, de gestos rudes ou doces, de retas e curvas fechadas, de luzes e penumbra. Mas, sem arrependimentos ou ufanismos sonsos. Só imagens (quase) transparentes da vida...



Escrito por Coiote às 01h12
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Senta a pua, Gabeira!!!

A decisão da Revista “Veja” que circulou em meados de setembro, de escancarar foto de capa do deputado federal Fernando Gabeira (PV) foi mais que oportuna. Fez justiça a um brasileiro de ótima cepa, que teve a coragem de dizer ao vetusto e traquinas ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, que este envergonhava o Congresso e a Nação. Se a idéia é recrutar para a coluna os atos de coragem de Gabeira, na vida e na política partidária, vai faltar espaço. Ao contrário da mensagem de capa da Veja, que alude à utopia possível praticada pelo parlamentar, a de relatar sua bravura é uma utopia quase impossível, tantos são os bons exemplos que Gabeira nos dá, há anos. Mas “Veja” não circula nos grotões da miséria, no topo das favelas, onde há fome. Então, Gabeira é diversão da elite e herói de poucos.

E dizem que o cara é gay, bissexual ou “veado” como proferem alguns senhores de engenho que possivelmente fazem da cana um instrumento de erotismo! Bendita “viadice”! Onde encontrar, afinal, no Brasil de hoje, alguém que, a exemplo do Gabeira, coloque a inteligência, a boa vontade e a dignidade à frente dos colhões?  O machismo de Gabeira é outro. Tem mais a ver com uma história que se escreve paralela a esta modorrenta e escorregadia vida nacional.

Bem antes de lançar a moda da sunga de crochê, em Ipanema, lá pelos idos de 1980, Gabeira já tinha posto a cara e os ossos a prêmio, enfrentando a ditadura militar como homem de ações, que não concebia este sofrível paraíso terreno, banido de liberdades fundamentais, sem empunhar a espada. Sim, mas não a espada que balança frouxa no meio das pernas de boa parte dos súditos desta revisitada Coroa, cravejada de pedras que se dá aos porcos. A dele tem corte, lâmina afiada. Espeta figurões. Reduz a micos os babuínos de Brasília.

Dizer que Gabeira é politicamente correto, soa ofensa imperdoável. Todo mundo o é ou diz ser. A expressão virou carne de vaca. E putrefata! A politicagem a destruiu, minou seu significado original. Gabeira, neste sentido, é politicamente incorreto, definição que melhor se ajusta a quem, na sociedade brasileira “muderna”, anda em total descompasso com a bandalheira nacional. "O que é isso, companheiro"? É isso mesmo!

Curioso que o símbolo da sexualidade liberta, da sunguinha de crochê, vire sinônimo de brasileiro exemplar. O garoto de Ipanema, ao contrário da musa Helô Pinheiro, saiu das praias cariocas para incendiar a Nação com o mais autêntico espírito de cidadania! Corpinho de manequim 36 e busto, digo, peito, pronunciado o suficiente para esfregar na cara dos psicopatas do poder. E ainda dizem que o cara é veado! Que, então, eles, estes abençoados "veados" devastem os pastos desta Fazenda Brasil, que nunca foi modelo. Terra improdutiva vira feno na boca de quem não tem papas na língua e nem braços travados, olhos vidrados e ouvidos entupidos de cera.



Escrito por Coiote às 13h43
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